sábado, 12 de junho de 2010 0 comentários

Mentes apodrecidas

Ela parecia especial. Desde quando nasceu fora diferente das outras garotas Não tinha o dom de falar. Seus olhos pareciam cantar sozinhos e sua grande especialidade era viver suas histórias inventadas. Não lhe faltava muito para que não fosse desse mundo.
Viver, para ela, era tão simples e puro quanto colher entre as flores um dente de leão e espalhar suas pétalas no vento. Não parecia que seria mais que isso. Sua infância foi ouro.
Mas o mundo sempre teve garras afiadas de insalubridade. Notara que com o passar do tempo, conhecendo o mundo, ele já não seria tão simples e puro quanto uma fotografia de verão.
E que com o caminhar entre as pessoas havia muito mais que personagens figurativos... e muito mais visões distorcidas... quisera tanto que fosse mero cenário, representação lúdica ou que não tivesse bestas feras e monstros ocultos dos mares.

Sempre ouvia falar de tudo e de todos com grande medo. Até que um dia olhando distraidamente para as pessoas em redor notara que conseguira as ver diferentes. Todas elas tinham a parte superior da cabeça como transparente e podia enxergar o cérebro de cada um e o estado como se encontrava a mente.

Surpreendeu-se com, como degenerava fácil as mentes das pessoas. E todas, todas elas continham mentes degeneradas, mentes apodrecidas. Podia ver as partes do cérebro se corrompendo, se corroendo, se perdendo. Era a visão dos infernos. Era a falta total de esperança. Era um pesadelo.

Agora passava a vida assim, com medo de que aquelas mentes a contaminassem, de que o mundo fosse apenas isso e quando esquecer, quando tentava não notar lá estava uma mente apodrecida estampada na sua frente. Recuara-se do mundo com grande asco. Quisera que não fosse verdade, que ela mesma é que fosse do além. Não podia existir tanta escuridão no brilho dos olhos, no sorriso no rosto de todas aquelas pessoas que antes, tanto ela se aprazia em ver.

Então dominou-a a vontade de enxergar o próprio estado do seu cérebro. Mas ela descobrira agora que esse poder ela não tinha. Ela poderia ter qualquer outro, quem sabe. Mas esse, esse não. Frustrou-se, olhando-se no espelho e não enxergando nada. Como estaria sua mente? Seria tão apodrecida, tão degenerada quanto todas as que vira e tivera horror em ver? Seria sempre assim? Ela com vontade de saber quem era, de quem ela própria se tratara, de quão apodrecida era sua mente.

E quem lhe diria, quem poderia a ajudar? Quem a ajudaria a continuar?

Em meio à mentes apodrecidas, sentou e se angustiou. Pessoas eram vultos esparsos, era uma multidão sem fim de nada, era um oásis de vazio. Ela nunca saberia o que queria saber. Se era tão igual aos outros, então por que e com qual intuito só ela via mentes apodrecidas? Não seria então para todo mundo ver e comentar a respeito? Ninguém nunca lhe daria resposta satisfatória. A vida sempre lhe seria uma amargura tremenda.

Chorou. Chorou como nunca tinha chorado. Como quem desejasse muito ter uma mente apodrecida só para não se sentir diferente, só para não ver as outras que se abanavam na sua frente. Seu coração doía, fechava os olhos, já não queria mais ver.

Até que chegou alguém e sentou-se do seu lado.
-Não sei se alguém já lhe disse isso, e aparecerá estranho, mas eu consigo ver a sua mente.

Ela o olhou estupefata. De repente, ela o enxergou como nunca havia enxergado ninguém antes. Ele lhe parecia tão familiar, era como seu próprio reflexo contrário no espelho. Ela enxergava a mente dele e não temia. Ela enxergava a mente dele e queria tanto que fosse a sua própria. Ela enxergava a mente dele e se comprazia. Ele era tão especial quanto ela. Ele não era ela?

Ele já nem precisava lhe dizer como era sua mente. Ele sabia, e isso, parecia que lhe bastava. Ele sabia. Era estranho notar no entanto, que entre eles havia um silêncio profundo, uma harmonia contínua, uma sensação que acalmava. Bastava que estivessem ali, um diante do outro. Um do lado do outro. E a força seria eterna. Então ele lhe estendeu a mão e caminharam firmes, de mãos dadas, em meio à multidão de mentes apodrecidas.
terça-feira, 1 de junho de 2010

Do assunto que tanto gosto...

Eu gosto de escrever porque àqueles que escrevem é concedido tudo. À eles são concedidos reger o destino de suas palavras. Com essas palavras eles podem ser tudo: ter o que almejam, as realizações dos seus sonhos, o sentido, a eficácia e a alegria em suas vidas narradas.
Só é nas palavras que não temos limitações nem barreiras. Não há preconceitos nem obstáculos que permaneçam intransponíveis. É somente nas palavras que encontramos a total recompensa por todos os nossos atos, sejam eles maus ou bons. Ainda podemos tirar deles máximas filosóficas desses atos acentuar as virtudes e ocultar os defeitos... Sermos o mais charmoso e venerado dos personagens que tivermos em mente.
Ninguém nos negará a virtude, a honra nem as nossas mais íntimas qualidades quando apresentarmos aos nossos leitores a verdade de que não temos nem sequer uma gota de beleza exterior. Para o leitor, nem àquele que escrevem, importará ao certo se somos feios e merecemos piedade.
Só a palavra é capaz de abrandar a fúria dos nossos corações impiedosos e estabelecer uma estranha e complexa relação de carinho e afeto com aqueles que não são reais. Temos uma humanidade sem tamanho estabelecida para o não-real e uma desumanidade sem tamanho estabelecida no nosso dia-a-dia.
Eu amo a palavra porque expõe do ser humano só o que é certo, o que é correto expor e não é maculada nem persuadida como a visão, a imagem ou a linguagem visual que pouco nos mostra além daquilo em que conseguimos ver (e se não tivermos a inteligência necessária, de extrema perspicácia...). Tudo isso é falsa imagem.
Eu posso ser quem eu realmente sou quando escrevo e não tenho medo nem vergonha porisso. Posso sim demonstrar toda a minha fraqueza e com a minha sinceridade os meus defeitos, mas sei que represento talvez o que é mais certo sem retoque de maquiagem e nem contrariedades entre o que escrevo e o que sou. Antes, é alívio me confessar assim e se não fosse sempre com tal intenção (de confissão) eu não teria motivo algum para escrever.
Eu diria que só a palavra me entende. Sem indiscrições ou rodeios. Sem críticas, culpa, lamentos nem conselhos. Que me deixa indagar sozinha e segui-la no livre curso da minha mente. Só o que não me cansa e nunca me desgasta é escrever. E às vezes confessar todo esse amor pela escrita é para mim algo totalmente necessário (como um pensamento de:" Eu não sou louca" ) para que eu tenha um estímulo e continue, mesmo sem retorno, escrevendo.
Tem dias em que tudo me perturba que me leva à um estranho e inexplicável conflito interior - algo sem motivo nem fundamento - que deságua, ou melhor, que me faz desabafar na escrita. É consolo saber que eu tenho alguém com quem compartilhar minha dor e esse consolo é como nenhum outro poderoso remédio que consegue estabelecer em mim uma tranquilidade, uma paz, uma calma interior.
Eu diria que não é um escritor que não desiste de escrever quando vê que sua palavra não pode mudar nem o pensamento do vizinho e nem reestabelecer a crença em corações pagãos ou desesperançados nem mesmo fazer com que uma jovem de hoje acredite na sua própria felicidade... o escritor em si não é um guerreiro nato, forte, batalhador e inabalável, ele é talvez, o mais fraco, sensível e oprimido que estiver entre nós, aquele no qual não daríamos nada e que não o reconheceríamos jamais como uma mente brilhante... são sim fracos seres que vendo o mundo desistem facilmente... quem não desiste porém é a própria palavra que os toma e nunca, nunca mesmo, desiste deles.
Eu não sou nada, mas eu tenho "na mão um lápis e nesse papel"  uma palavra que nunca vai desistir de mim.
terça-feira, 18 de maio de 2010 0 comentários

Um poema

Enquanto o sangue ruim circular pelas minhas veias...
e o sopro de vida for nada mais que um coração de pedra,
ainda sim por entre as chamas congeladas habitará um amor perpétuo
digno de ser conservado intacto, para salvaguardar sua extrema beleza

Por mais que as palavras sejam duras e frias
e nelas conter rasgos de sarcasmo, descaso e desprezo,
ainda sim serão as mesmas que se odiares um dia
estarão lá no futuro para apaziguarem a tua ira

Quando não mais se escorar as minhas estruturas sobre a rocha,
e forem falsas, vagamente movidas pela vento
e molemente fixadas na areia,
aí sim poderá dar por perdida qualquer solidez de sentimento

Mas se tem apenas como desculpa a barreira de um caráter rígido,
que se dirige regrado na imensão de um mundo revolto...
Tal desculpa não seria suficiente para afugentar um coração contrito,
e nem se convenceria sozinho que não se precisa do outro...
quinta-feira, 13 de maio de 2010 0 comentários

O menino e o telescópio


E tudo o que o nosso grande garoto queria era aquela pequena estrela que brilhava infinda nos céus de Maio. Poderia querer os anéis de Júpiter, as cráteras de Marte, os satélites da Lua. Mas não. Tudo o que ele queria era aquela pequena estrela.

E por isso desde sempre levava consigo seu telescópio. Estudar os astros, observava as suas posições de período em período, todas as estrelas. Ele já tinha conhecimento pleno de todas as estrelas. De onde poderia vê-las melhor, analisar suas peculiaridades, quais noites mais estreladas...

Ele apreciava noites estreladas. Tinha noites em que ia ao parque sentava na grama, preparava o seu telescópio... Ah! Que noites lindas eram aquelas em que se podia contemplar as estrelas! Como ele amava o brilho intenso das estrelas.

Porém tinha uma pequena estrela, na qual avistou um dia de relance e que aparecia raramente, de um brilho diminuto e desgracioso, de uma luz fraca e distante. Quão misteriosa e singular era aquela pequena estrela. Procurara nos livros consultar a sua posição no céu, saber de onde provinha, há quantos anos luz estava de distância... E qual era o seu nome? Qual era o seu nome? Não soubera dizer. E ocupando-se com isso o brilho de sua pequena estrela se apagou.

Intrigou-se. Desde então era o seu prazer mais puro, a sua vontade mais extrema ir atrás de sua pequena estrela. Encontrá-la. Encontrá-la.

Quantas vezes não a procurou sem êxito? Noites inteiras não dormidas esperando aquela aparição de brilho fosco. E outras em que as estrelas pareciam terem conspirado contra ele fazendo com que a noite fosse clara e vazia.

O que tanto a pequena estrela lhe chamava atenção nem sabia dizer ao certo. Não era uma estrela como as outras tampouco a sua aparição merecia destaque... Queria entender o por quê daquele brilho vago, triste, do seu aparecimento repentino, do seu piscar em noite escura quase sussurrante. E não era tão lindo?

E sempre fora assim tão apaixonado pela pequena estrela, queria pegá-la em um momento desprevinada, parecia que se ocultava quando ele lançava-se ansioso sobre o telescópio.

Ah, o telescópio. Era mais do que apenas um instrumento. Podia com ele alcançar os céus. Lá, muito além das noites escuras e sombrias. Da escuridão absoluta sempre que aproximava os olhos poderia ver a beleza extrema que quisesse. Se cada noite quisesse escolher uma estrela diferente, ali estariam todas e poderia admirá-las o tempo que lhe aprouvesse.

Mas não. Ele só queria ver o brilho da sua pequena estrela. Nem seja só mais dessa vez.

Mas estrelas em si nada mais eram que ideias ilusórias de algo que não estava mais ali. Talvez um pequeno ponto luminoso que simbolize algo que já morreu. Porém ele se demorava no contemplar do brilho, sabia mesmo que era fantasioso e que sei alcance era remoto... Mas que prazer tinha em contemplar o brilho daquela estrela...

Era aquela a sua estrela apesar de tudo. Aquela em que "pegara para si", não importava o quanto tempo a roubasse dele. Quantos anos luz de distância, quantas 12 h de separação de noite à noite... Não importava. No fundo, ele sabia que ela era dele.

Parece que quanto maior a distância, maior a impossibilidade de vê-la há todo instante maior era a atração que ela exercia sobre ele.

De dia sem tal presença convidativa ainda que ela permancesse lá, sem que seus olhos a vissem, afinal lhe dava um ódio era do telescópio! Como poderia tal coisa aproximá-l de algo tão distante, tão desesperançoso? E que hábito tomara de andar sempre com seu telescópio!

Já era parte dele. Era ele, o grande garoto e seu telescópio. Porque no final das contas o seu amor mesmo era ao telescópio, o que afinal lhe permitia as noites estreladas? Não importando quais estrelas, o telescópio era o seu refúgio, a sua dose de alegria, a sua diversão diária, era o seu consolo.

E fora assim. Brincando que descobrira a sua pequena estrela. É com dor que ele a observa neste momento. Mas só por causa disso ele não vai perder o hábito de usar o seu telescópio nas noites estreladas mais atraentes, tampouco sairá correndo em noites "desnudas" na possibilidade de encontrar o seu par solitário, o brilho sumido da sua pequena estrela.
quinta-feira, 18 de março de 2010 0 comentários

A incrível história do submarino amarelo

Péricles estava todo feliz com o submarino que ganhara de presente. Fora o seu primeiro e único pedido durante todo os seus sete anos de vida.

Era verde. O submarino. Péricles sonhara e pedira tanto um submarino amarelo.

-Que ideia estapafúrdia, menino! Amarelo!

-Sim, amarelo.

-Tudo bem.

E assim foi. Péricles andava todo feliz com o novo presente, não o largava por nenhum um só minuto.

-Aonde você vai com isso menino?

-Submarino precisa de mar. Eu estou indo brincar de mergulho. Eu quero saber das coisas que podemos ver no fundo do mar.

-E como você vai saber o que são as coisas?

-O submarino é amarelo, tio.

E isso lhe bastava. Elepoderia desvendar os mistérios do fundo do mar e aventurar-se com coisas que nunca viu. Tudo isso só seria possível se o submarino fosse amarelo. Certa vez ouviu uma história. De um garoto que tinha um submarino amarelo e onde ele estava com o submarino e fizesse um pedido, esse pedido se tornava realidade. O menino pedira tantas coisas! Coisas que também queria conhecer, que queria saber, que queria ver...

Mas quem lhe contou a história ressaltou:

-Toda a mágica do submarino não se recorria ao fato de que era um submarino, mas porque era justamente amarelo. A magia estava na cor. Na cor. Porque era a primeira cor que se via quando se olhava. Porque o misticismo surgia a partir da cor. Porque a luz quando incidia sobre o objeto... A imagem era no que se cria! A imagem... transcendia!

Péricles lembrou que não entendeu mais nada depois do "misticismo", mas que, ouvindo, achou muito bonito. Deveria ser tão lindo, a luz. E era por isso que queria tanto o submarino amarelo. Agora tinha.

Saiu correndo para fazer seus pedidos mais secretos... querita tanto saber como era uma baleia... se sua pele era de veludo salmon... se era grande mesmo a ponto de não conseguir estirar os braços e abraçar seu comprimento. Queria saber das estrelas do mar e como éram as conchinhas na beira da praia...A praia! Tudo seria possível com o seu submarino amarelo.

Não entendia como a areia podia rodear o mar e segurálo se era tão fina e minúscula? E como seria o vento se a luz incidisse sobre ele? Ele queria ver esse tal do misticismo, o cara de nome engraçado. E para isso, o submarino era amarelo!

-Aonde você vai com isso, verde, aí?

-Eu?

-É.

-Pode re-repetir a cor, por favor?

-Verde. Por quê? O que é ?

- Verde?...

Péricles saiu em disparada. Não continha nas suas passadas largas toda a dor que queria deixar para trás. Era por isso que não conseguia. Era por isso que a incrível história não se daria com ele. Péricles chegava até a engasgar-se com as lágrimas.

Naquilo que ele acreditou tanto que seus sonhos se realizariam! Não queria acostumar-se. Prometeu a si mesmo que não se acostumaria. Ele ainda saberia das coisas que queria saber. Do misticismo. da luz. Em como ela incidia sobre o submarino... ele ainda veria a primeira cor que se via quando se olhava. E quando visse, saberia que era ela.

Como queria um submarino amarelo! Como quisera fazer os pedidos que o menino fez. Como quisera ser o menino daquela história.

Se tivesse um submarino amarelo ele faria o pedido que ensaiava em não fazer. E assim ele não pediria mais nada para ninguém. Com esse pedido, ninguém mais o enganaria. Ele só queria ver. Ele só queria ver.

Ele tinha um pedido melhor do que aquele menino da história. Ele só queria ver. Ver como a luz incidia sobre o submarino. Como era o submarino? Ele queria ver a luz. Ver a luz. E o como o senhor misticismo usava as cores. Só precisava ser amarelo. Só. Só.

Com seus sonhos despedaçados e esperanças desfeitas, Péricles adormeceu. Banhado de lágrimas e agarrado com o seu submarino verde. Péricles era cego. E mal sabia ele que vivia cercado de mais misticismo do qualquer outra pessoa que tinha a luz por comum. E que a sua história era mais incrível do que aquela história do submarino amarelo.
 
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